PSLdoB – ABAIXO AO PELEGUISMO

Em nome da defesa de um Estado Democrático de Direito falido, o Partido Comunista do Brasil decide apoiar a candidatura de Rodrigo Maia (DEM) na Câmara sentando-se lado a lado de Jair Messias Bolsonaro (PSL). O PCdoB, mais uma vez demonstrou a quem eles servem.

Chega de pelego e inimigo de classe.
Que construamos alternativas aquém do Estado, aquém do Capital, aquém do jogo político sujo que esses Partidos nos vendem a preço de banana. 

Realmente. “Ninguém solta a mão de ninguém” 

 

16 de janeiro de 2019

HÁ POVOS ORIGINÁRIOS, HÁ RESISTÊNCIA, HÁ LUTA!

 

É inegável o fato de que o Estado e as Grandes Corporações exterminaram e continuam a exterminar indiscriminadamente povos indígenas e originários das Américas. Desde a chegada da frota de conquistadores e assassinos europeus, até os dias atuais, os povos originários sofrem com a perseguição e a tomada sanguinária de suas terras, de suas águas, de sua alma. O Genocídio Indígena não é algo falacioso, é mais do que real e continua a ser frequente em países das Américas, Austrália, África, e Ásia. No início, estimulada pelos conquistadores portugueses, espanhóis e britânicos, não tardaram a ser um projeto imperialista de dominação global em que tanto o Estado quanto as Grandes Corporações promovem em seus próprios países para alegria da Comunidade Internacional. Utilizam-se de Ruralistas, Latifundiários, da Polícia, Capangas e quaisquer meios que dispõem para transformarem suas terras em áreas de agronegócio, seus rios em barragens e estações hidrelétricas, sua cultura em mero aparelho de vendas para a classe média subconsciente.

No território que hoje se encontra o México, no território em que hoje se encontra os EUA,  no que se conhece hoje por Caribe, no que se entende por Brasil, por Sibéria, por Japão, no que reconhece como Austrália e Tazmânia, por Congo, por Bangladesh, por Birmânia, Colômbia, Timor Leste, Chile, Guatemala, Paraguai, Tibete, etc. Promove-se desde “A Conquista”, a submissão violenta dos povos originários em favor da felicidade e liberdade burguesa.

Entretanto, bem como o Estado ataca, há e sempre houve resistência. Guerras entre conquistadores e tribos indígenas ocorrem em toda a parte do globo, desde o século XV até os dias atuais no século XXI, por pelo menos seis séculos. Guerras que ocorriam entre conquistadores na mata. Guerras em que se evangelizavam crianças e adultos forçosamente. Guerras que tinha como objetivo exterminar toda a cultura de um povo.

O extermínio de povos originários no globo não nos é distante. Não é como se tivesse ocorrido em 1500, terminado no século XIX e atualmente apenas casos isolados ocorressem, não. Está mais próximo do que nós imaginamos. E diariamente, vemos notícias de indígenas assassinados e sem suas terras. Bem como diariamente vemos a luta, a garra e a resistência destes que sofrem nas mãos do Estado/Capital há pelo menos 500 anos.  

Uma resistência que rende frutos gloriosos, que rende mortes terríveis, que rende a defesa de suas vidas e suas liberdade. De modo mais contemporâneo, a resistência dos povos originários do EZLN (Ejército Zapatista de Libertación Nacional) no território do México se faz presente, bem como os povos originários Mapuches no território do Chile e Argentina, como os maiores exemplos de resistência, anticapitalismo, antiestatismo, horizontalidade e sintomas revolucionários, das Américas e, não obstante, no Brasil.

O Povo Mapuche

O Povo Mapuche, por exemplo, sofre com o despojo territorial, ou seja, lhe são roubadas suas terras ancestrais e são jogados em áreas cada vez menores e mais distantes. Essas terras ancestrais e sua luta pela legitimação, advém, e muito, de sua forte ligação com a Terra.

Após a independência Chilena em 1818, houve a necessidade de se legitimar símbolos nacionais, a partir da hegemonia cultural e da planificação territorial. Sendo, portanto, impossível para o projeto nacionalista de legitimar a “Território Autônoma Mapuche”, os republicanos tomaram como objetivo a expansão e conquista da totalidade de suas terras, expulsando-os para regiões menores e campesinas em que estiveram durante todo o século XX.

Após a abertura democrática em 1990, diversas organizações Mapuche no Chile se mobilizaram, no sentido de reivindicarem o acesso e a perpetuidade à terra, principal bandeira de luta até então. Ademais, visto a conjuntura política, estas organizações perceberam que era um momento propício para colocarem em pauta questões que até então haviam sido postergadas, como o reconhecimento da diversidade étnica e cultural chilena, a participação na condução e elaboração de políticas indígenas, a concessão de terras públicas ou a desapropriação de privadas para assentamentos de comunidades indígenas, a proteção legal de suas terras e recursos naturais e finalmente o apoio estatal ao desenvolvimento econômico e cultural das comunidades. Apesar disso, na redação da Lei Indígena, que regulariza as diretrizes das políticas indigenistas, o congresso aceitou somente parcialmente estas reivindicações, obstaculizando fortemente a participação dos indígenas na vida política do país e das próprias comunidades das quais faziam parte.

Tal postura por parte do Estado favoreceu o tensionamento das relações com estas organizações e até mesmo a formação de outras, que iniciaram um profícuo processo de politização, incorporando a seus discursos conceitos como “nação indígena”, “autonomia”, “autodeterminação” e “territorialidade”. Assim se formaram organizações como o “Consejo de Todas las Tierras” (Aukin Wall Mapu Ngulam) e a “Coordinadora de Comunidades en Conflicto Arauco Malleco” (CAM).Visto a perpetuação da condição marginalizada dos Mapuche e a omissão estatal para com elas, a saída desesperada encontrada por algumas organizações foi a do aumento da radicalidade. Em meados da década de 1990 iniciam-se uma série de protestos, visando o aumento da participação política, a recuperação de terras e melhores condições de vida à população Mapuche.

O movimento indígena reagiu à coerção estatal, com protestos nas cidades, “recuperações produtivas” , sabotagens em equipamentos das empresas florestais e pequenos incêndios expulsando e destituindo as ocupações de terra na base da violência, perseguindo os líderes do movimento, fazendo buscas e apreensões nos domicílios etc. Concomitantemente, o Estado tenta a legitimação legal destas ações, encontrando para isso amparo na conservadora constituição chilena.

Os indígenas são acusados como terroristas por ações como ocupações de terra ou delitos de caráter reivindicatórios, como pequenos incêndios ou delitos contra a propriedade (geralmente contra as empresas florestais que jamais poderiam ser enquadradas como “terroristas”. Estudos indicam o uso sistemático dos recursos desta lei especificamente contra os Mapuche, estigmatizando assim o movimento e talvez o mais grave, debilitando as garantias processuais de um julgamento justo.

E dessa forma diversos Mapuches são presos, perseguidos e mortos pelo Estado que não aceita a ancestralidade dos povos originários. Que não os aceita como humanos. Que não aceita sua cultura, sua vida.

A luta dos Mapuches, para além das vitórias e derrotas, levou à óbito diversos companheiros e companheiras, como Matias Catrileo e Camillo Catrillanca, estudantes mortos com tiros de policiais chilenos, e tornaram-se símbolos de luta e resistência do Povo Mapuche e todos aqueles que buscam a liberdade.

O Ejército Zapatista de Libertación Nacional (EZLN)

25 ano do Levante Zapatista!

Durante o regime de partido único Partido Revolucionário Institucional que durou mais de 70 anos, os movimentos camponeses, operários e populares que discordavam do modelo de nação priista enfrentaram consecutivas e sistemáticas repressões, o que fez com que muitos jovens considerassem os canais legais da participação política fechados e apostassem na formação de organizações armadas para buscar a derrota de um regime que de seu ponto de vista era autoritário, e melhorar as condições de vida da população.

De uma dessas organizações, a Forças de Libertação Nacional (FLN), surgiu o Ejército Zapatista de Libertación Nacional (EZLN). Em 17 de novembro de 1983, um grupo de pessoas entre as quais se encontravam indígenas e mestiços, declaram formalmente constituída a formação de um exército regular que em 1 de janeiro de 1994 sairia à luz pública sob a declaração de guerra ao governo mexicano.

Sob as ações que se articularam em prol da defesa de direitos coletivos e individuais negados aos povos indígenas mexicanos; da construção de um novo modelo de nação que inclua a democracia, a liberdade e a justiça como princípios fundamentais de uma nova forma de fazer política; da formação de uma rede de resistência e rebeliões no mundo todo em nome da humanidade e contra o neoliberalismo.

Aparentemente com uma estratégia e organização bem definidas, a história zapatista, chamada assim por eles, conta com sete etapas, em que a primeira seria a seleção de lideranças revolucionárias que criaram a primeira célula política da organização; num segundo momento a criação de “La Pesadilla” instalada em Chiapas; a terceira etapa faz parte de estudos militares e estratégicos das forças armadas mexicanas e estadunidenses e a instalação de novos acampamentos; a quarta etapa o grupo inicia seus contatos com os povos da região e a quinta etapa, considerada por eles, como um aumento explosivo de acampamentos e apoio popular. A sexta afirmar uma posição de guerra contra o Estado Mexicano e o presidente Salinas, bem como ao neoliberalismo arregaçador.

A sétima etapa

Em 1º de janeiro de 1994, Ejército Zapatista de Libertación Nacional (EZLN)  tomou as ruas de cinco distritos de Chiapas, no território Mexicano. Conseguindo surpreender as forças armadas do Estado Mexicano e o Capital Estadunidense, indígenas e camponeses com táticas de guerrilha conseguiram enorme apoio popular regional e mundial. Uma vez realizadas as ocupações, emitem a Primeira Declaração da Selva Lacandona, por meio da qual declaram guerra ao governo mexicano ao mesmo tempo em que pedem “trabalho, terra, teto, alimentação, saúde, educação, independência, liberdade, democracia, justiça e paz”.

Em 2 de janeiro, atacou a XXXI Zona Militar em um combate que durou mais de dez horas, apesar do comandante militar, o general Gastón Menchaca Arias, haver concedido o dia de folga a vários integrantes de suas tropas por causa do ano novo. Ao final, o EZLN não conseguiu seu objetivo e recuou para dentro da mata.O EZLN prosseguiu com suas atividades guerrilheiras e, no dia 8, persegue com disparos as instalações do quartel general da XXXI Zona Militar (San Cristóbal de las Casas). Registraram-se atentados contra torres de abastecimento elétrico e contra um gasoduto de petróleo mexicanos. Além disso, presumidos zapatistas derrubaram duas torres de abastecimento elétrico nos estados de Puebla e Michoacán e, no dia seguinte, explodiu um carro-bomba na capital mexicana, e grupos simpatizantes aos zapatistas armam uma bomba no palácio do governo de Acapulco. Depois, um carro-bomba explodiu próximo a um campo militar no estado do México, em Hidalgo e na capital mexicana, respectivamente. Os rebeldes advertiram que outros atentados seriam possíveis na capital mexicana.

Exatamente um mês após haver começado sua insurreição, o EZLN fez um pedido àos indígenas de Guerrero para que não os deixassem sós. Também pediram que as ONGs formassem um cinturão de paz ao redor do diálogo. A Cruz Vermelha, a sociedade civil e a polícia militar instalaram cinturões para resguardar as negociações mediante enquanto foram chegando a San Cristóbal de las Casas 19 delegados zapatistas para participar nas Jornadas pela Paz e a Reconciliação.

Em 1995, de acordo com o Presidente as identidades dos dirigente zapatistas haviam sido descobertas e que, em aplicação da lei, havia-se liberado contra eles as respectivas ordens de captura. Assim, o governo federal mexicano identificou o porta-voz da guerrilha – “Marcos” – como o ex-professor e filósofo Rafael Sebastián Guillén Vicente, de 38 anos, e emitiu um mandado de prisão em seu nome, por porte de armas exclusivas do exército e terrorismo, entre outros delitos. Marcos aparecia em público usando balaclava e, muitas vezes, fumando um cachimbo. Dois dias depois, o Exército mexicano avançou sobre várias populações de Chiapas e retomou o controle de alguns povoados que haviam sido ocupados pela insurgência zapatista. Em somente 15 dias, mais de 20 mil pessoas fugiram de suas comunidades para a mata, enquanto o exército ocupava o território abandonado. Dessa forma, o governo federal seguia uma estratégia dupla de combate contra a insurgência: por um lado, a Secretaria do Governo buscava negociações políticas com o EZLN e, por outro, a Procuradoria Geral da República ditava ordens de prisão contra aqueles que supostamente formavam sua dirigência, de forma a manter cobertura legal para as ações do exército mexicano.] Em meados do mês, cercado pela pressão militar, o EZLN pede o fim da guerra. Os partidos e associações de esquerda dão início a grandes mobilizações a nível nacional e internacional para obrigar o governo a iniciar uma negociação. Nessas circunstâncias, e uma vez recuperada a iniciativa política, os zapatistas condicionam o inicio do diálogo por eles solicitado à saída do exército mexicano da selva e à anulação das ordens de prisão pela Justiça mexicana.

A perseguição e prisão da suposta dirigência zapatista levou a sociedade civil a voltar novamente às ruas, em protesto contra o que a esquerda radical considerou uma nova escalada de repressão.

Em 1996, conforme vinha ocorrendo todos os anos desde sua insurreição armada, o EZLN lançou a Quarta Declaração da Selva Lacandona. Ela levantou a decisão do EZLN de ajudar a construir uma nova política, apartidária e que não luta pelo poder, independente, autônoma, pacífica, “baseada no EZLN”. No dia 5 de janeiro, o “subcomandante insurgente Marcos” abandonou seu esconderijo na mata e viaja a San Cristóbal para participar do Fórum Nacional Especial de Cultura e Direitos Indígenas que se havia iniciado dois dias antes. No dia 10, encerrou-se o Fórum com a proposta de integrar uma nova organização que posteriormente seria conhecida como Congresso Nacional Indígena. Em 2 de maio, Javier Elorriaga Berdegué e Sebastián Etzin Gómez foram sentenciados a 13 e seis anos de prisão, respectivamente, por crimes de terrorismo. Após saber da sentença, o EZLN declarou que ela constitui uma provocação à paz, uma violação à Lei para o Diálogo, e suspendeu sua participação no processo de negociação. Em 6 de junho, após uma intensa campanha nacional e internacional pedindo a libertação dos sentenciados, uma corte de apelação revogou a sentença contra os presumidos zapatistas, que foram soltos. O EZLN suspendeu o estado de alerta de suas tropas.Em 2 de setembro, o “exército zapatista” decidiu suspender sua participação nos diálogos de San Andrés e estabeleceu cinco condições para regressar às negociações e durante o ato a Comandanta Ramona pronunciou um discurso que termina com a frase: “nunca mais um México sem nós”.

No início do ano de 2001, o “subcomandante insurgente Marcos” anunciou a criação do Centro de Informação Zapatista, mediante o qual seriam trocadas informações sobre a viagem dos guerrilheiros ao Distrito Federal e se articularam mobilizações para exigir o cumprimento das condições que o EZLN colocou para o diálogo. Em 2005. o EZLN emitiu a Sexta Declaração da Selva Lacandona e anunciou que deixaria as armas e faria política.  Entre 5 de agosto e 18 de setembro de 2005, o EZLN participou de reuniões com organizações políticas de esquerda, organizações indígenas e povos índios, organizações sociais e ONGs, organizações e grupos culturais e de artistas, e com mulheres, homens, anciãos e crianças que a título individual, familiar, de comunidade, rua, bairro ou vizinhança haviam assinado a Sexta Declaración de la Selva Lacandona. Em tais reuniões, sendo a mais numerosa a de organizações e grupos artísticos e culturais, foram abordados seis pontos que serviram para guiar as reflexões e as discussões: ratificação, ampliação ou modificação das características da “Outra Campanha”, definição de quem está convocado e quem não está, estrutura organizacional da “Outra Campanha”, lugar especial das diferenças na “Outra Campanha” (indígenas, mulheres, jovens, crianças e outros), posição da “Outra Campanha” frente a outros esforços organizacionais e tarefas imediatas.

No ano de 2019, faz-se 25 anos do Levante Zapatista, que encontra-se na história como um dos maiores ataques ao Estado. Grupos de camponeses e indígenas que apesar de não terem conseguido dominar as cidade mexicanas puderam tomar conta de suas matas e suas terras, durante todo esse período. Com instruções à construção de uma sociedade ecologista, não sexista, horizontal, com uma outra forma de fazer política cuidar do poder de acordo com as suas necessidades, o Ejército Zapatista de Libertación Nacional (EZLN) faz-se presente na luta de libertação dos povos do mundo.

Os Povos Originários no Brasil

No período em que o fascista Jair Messias Bolsonaro assume o cargo de presidência da república deste condomínio chamado Brasil, é necessário falar sobre o APROFUNDAMENTO do genocídio indígena neste país. Do século XVI ao XX, da “Constituição Cidadã de 1988” ao ano de 2019, são milhares de indígenas, tribos, comunidades e ativistas mortos, perseguidos, assassinados e destruídos. É o Estado junto aos Latifundiários em vista do Capital Internacional, os verdadeiros culpados. Os capangas, os grileiros. As bancadas ruralistas no Congresso. O Agronegócio. O açúcar. O Café e agora a Soja.

Os povos originários do território brasileiro sofrem com o genocídio e o apagamento de sua cultura. Apesar de protegidos por algumas leis, a população originária do território fora totalmente dominada pelos conquistadores portugueses, sendo dizimados aos milhões. Os conflitos que os envolvem continuam a se multiplicar; mortes, abusos, violência e disrupção interna continuam a afligir muitas comunidades, mesmo com todos os avanços e toda proteção jurídica, desde a Constituição Cidadã,  com toda a conscientização política das comunidades e sua mobilização conjunta, e mesmo com o apoio de alguma parcela da população brasileira não-originária e organismos internacionais. Há poderosos interesses políticos e econômicos em jogo, e mesmo interesses culturais. Ainda falta muito para que eles consigam garantir suas terras e uma sobrevivência digna e independente da tutela do governo, que historicamente os entendeu como incapazes e chamou a si a responsabilidade de “administrá-los”.  Mas agora, e não somente desta vez, sua administração não somente faz vistas grossas para seus assassinos, como também impetuosamente ordena o extermínio dos povos dando ao ratos empertigados aval para fazer valer o secular genocídio que desponta sobre os indígenas no Brasil (e não obstante, no mundo).

Para estes, os “indígenas brasileiros” são parte una de uma civilização.Uma civilização inimiga, um inimigo interno. Não as reconhecem como uma diversidade de culturas, tribos, comunidades, especializações, línguas, aparências, rituais e formações de sociedade distintas, que se conectam entre si a partir de suas ligações com a Terra e com as Águas. Mas como algo a ser combatido em nome da unidade nacional, algo que deve ser exterminado ou coagido a se adaptar.

As Terra que antes era tida como natural para os povos originários, fora transformada em “terra”. “Um pedaço de terra” concedido para que pudessem “viver as suas vidas” de forma vigiada por “um órgão competente de proteção”. Um órgão de proteção que não protegia. Mas que também não atacava. Um órgão de proteção que continuava a permitir ‘Belos Montes, que fazia vistas grossas aos grileiros. Este órgão, foi o Estado Brasileiro. Que concedeu “um pedaço de terra” para que pudessem fingir “cuidar dos índios”, mas que, de fato, só permitiam que vivessem enquanto as máquinas ainda não tivessem chegado no exato local de suas aldeias. Depois disso, foram cerca de 500 indígenas mortos desde a Constituição “Cidadã” de 1988.

Utilizados como capital político de governo de centro-esquerda, por movimentos sociais aparelhos com esses governos, pela esquerda liberal-universitária como campanha de diversidades. Foram esquecidos, protegidos-desprotegidos, e vendo sua Terra ser destruída diante de seus olhos sem ter por onde gritar.

Já não bastasse o silenciamento, os assassinos gatunos, e o apagamento e esquecimento de suas cultura durante todo esse período. Jair Messias Bolsonaro, elege-se para comandar esse condomínio com o único pomposo objetivo: “Se antes os povos originários eram “Terra”, hoje eles têm “terra”, amanhã não serão e não terão nada”. Em nome da Bancada Ruralista, do Capital Internacional, do Agronegócio, da Unidade Nacional e do seu ódio aos Povos Originários, Jair Messias Bolsonaro, pretende restringir às demarcações de “terra” ao mínimo possível. Pretender dar aval aos ruralistas e empresas para que possam invadir ainda mais essas terras. Aos policiais para que matem sem pudor. Não que antes fosse diferente. Porém, agora, tudo isso noticiado positivamente. Pretendem numa política entreguista, ultraliberal,nacional-populista, fundamentalista evangélica, militarizada e profundamente fascista, crescer e se fortalecer mediante ao assassinato e extermínio de milhares de indígenas de suas terras.

Os povos originários do Brasil tem pela frente uma enorme estrada para caminhar, para defender suas vidas, para defender suas “Terras”, para defender suas comunidades, suas tribos e sua dignidade. E é papel de todo e qualquer militante revolucionário se juntar a essa causa, construir junto aos povos originários diálogo e conexões de resistência e afinidades. Estabelecer canais de solidariedade e luta. Os povos originários no Brasil, são e foram negligenciados pela população não-indígena, num geral, sempre foram assassinados, sempre foram expulsos, presos ou acusados. Em linhas gerais, os povos originários mesmo quando tinha direitos não dispunham de direito nenhum, mas agora não trata-se mais da negligência ou da vista grossa, trata-se de uma guerra aberta.

O Governo Fascista Brasileiro travará, nos próximos meses e anos, uma novo estágio da guerra aberta aos indígenas: o genocídio diretamente financiado. Povos Originários do Brasil constituem uma vastidão de sujeitos que serão exterminados em nome das máquinas e do agronegócio. E é dever todo e qualquer militante anarquista e  revolucionário contribuir com a Resistência e a Luta Indígena no Brasil, e no Mundo. Os povos originários, indígenas e quilombolas, estão se organizando há muito tempo, cabe a nós difundirmos suas organizações e nos juntarmos a eles para que juntos possamos luta em prol da liberdade e da emancipação dos povos conquistados e explorados.

HÁ POVOS ORIGINÁRIOS
HÁ RESISTÊNCIA
HÁ LUTA

QUE NÃO NOS INTIMIDEMOS

Porque nenhuma fronteira do mundo pode barrar a Revolução Social

14 de janeiro de 2018 – Companheiro R.

“Como a não-violência protege o Estado” de Peter Gelderloos

Publicado pela Editora Deriva no Brasil em 2011 com tradução pelo Coletivo Protopia S.A. o livro “Como a não Violência Protege o Estado” de Peter Gelderloos discute as falsas histórias propagadas pelo Pacifismo que apagam todas as outras estratégias e táticas de rompimento com o Estado e o Capital.

Dividido em 9 capítulos (incluindo os agradecimentos e a Introdução) Gerderloos busca afirmar em sua narrativa que A não-violência é ineficaz, a não-violência é racista, a não-violência é estatista, a não-violência é patriarcal, a não violência é uma tática extremamente inferior e a não-violência é ilusória, bem como as alternativa e possibilidades para o ativismo revolucionário.

“Por causa da hegemonia que os partidários da não-violência exercem, críticas sobre a não-violência são excluídas da maioria dos periódicos, das mídias alternativas e de outros fóruns acessados por manifestantes. A não-violência é mantida como um artigo de fé, e como uma chave para a inclusão total dentro do movimento. Antiautoritários e anticapitalistas que sugerem ou praticam uma militância, subitamente, se veem abandonados pelos mesmos pacifistas com os quais estavam marchando no último protesto.” […] “A maioria dos proponentes da não violência com quem discuti esses assuntos, e foram muitos, abordou a discussão como se fosse uma conclusão já dada que o uso da violência em movimentos sociais era tanto errado como autodestrutivo.”

“Este livro mostrará que a não violência, em suas manifestações correntes, é baseada em falsas histórias de lutas. Tem conexões implícitas e explícitas com a manipulação dos brancos sobre as lutas de negros. Seus métodos estão envoltos em dinâmicas autoritárias, e seus resultados estão mais sujeitos a objetivos governamentais do que a populares. Mascara e até mesmo encoraja suposições patriarcais e dinâmicas de poder. Suas opções estratégicas invariavelmente levam a becos sem saída. E seus praticantes se enganam em inúmeros pontos chave.” […] “precisamos difundir essas críticas e acabar com o estrangulamento da não violência sobre os discursos, enquanto desenvolvemos formas de lutas mais efetivas

“Vou me referir aos proponentes da não violência por sua nomenclatura escolhida: como ativistas não violentos ou, alternadamente, pacifistas.” […] Grosso modo, usando o termo pacifismo ou não violência, eles indicam um modo de vida ou um método de ativismo social que evita, transforma, ou exclui a violência ao tentar mudar a sociedade para criar um mundo mais livre e pacífico” […] Quando falo sobre pacifistas e defensores da não violência, estou me referindo àqueles que imporiam suas ideologias ao movimento inteiro e dissuadiriam outros ativistas da luta (incluindo o uso da violência), ou que não apoiariam outros ativistas pelo simples fato de serem militantes]. Da mesma forma, um ativista revolucionário ideal não seria aquele que obsessivamente se concentra na luta contra a polícia ou pratica atos de sabotagem clandestina, mas aquele que abraça e apoia essas atividades, quando são efetivas, como parte de uma ampla gama de ações necessárias para derrubar o Estado e construir um mundo melhor”.

“Dificilmente o pacifismo seria atrativo aos seus defensores se sua ideologia não tivesse produzido vitórias históricas.” […] A posição pacifista quer que o sucesso seja atribuído somente às táticas pacifistas, enquanto o resto de nós acredita que a mudança vem de todo o espectro de táticas presentes em qualquer situação revolucionária, desde que sejam efetivamente implantadas”

Na Índia, a história conta que o povo sob a liderança de Gandhi construiu um movimento massivo não violento durante décadas e envolveu-se em protestos, desobediência civil, boicotes econômicos, exemplares greves de fome e atos de não cooperação para quebrar com o imperialismo britânico. Eles sofreram massacres e responderam com um par de protestos, mas, em sua maioria, o movimento foi não violento e, depois de perseverar durante décadas, o povo indiano ganhou sua independência, fornecendo um marco inegável da vitória pacifista. A história real é um pouco mais complicada, nela pressões violentas também influenciaram a decisão de retirada britânica”  […]  Ignoraram importantes lideranças da militância, como Chandrasekhar Azad, quem combateu na luta armada contra os colonialistas britânicos, e revolucionários como Bhagat Singh, quem ganhou um apoio massivo pelas bombas e assassinatos como parte da luta para alcançar a “derrocada tanto do capitalismo estrangeiro, como do indiano”. A história pacifista da luta indiana não pode fazer sentido algum a partir do fato de que Subhas Chandra Bose, o candidato militante, foi duas vezes eleito presidente do Congresso Nacional Indiano, em 1938 e 1939.” […] O aspecto mais triste da reivindicação pacifista de que a independência da Índia é uma vitória da não violência é que essa reivindicação atua de forma direta na fabricação histórica realizada pelos interesses da supremacia branca dos Estados imperialistas que colonizaram o sul do mundo. O movimento de libertação da Índia fracassou. Os britânicos não foram forçados a abandonar a Índia. Antes, eles escolheram transferir o território de um controle colonial direto para um controle neocolonial

A reivindicação de uma vitória pacifista na limitação da corrida armamentista nuclear é um pouco bizarra. Novamente, o movimento não foi exclusivamente não violento: incluiu grupos que realizaram uma série de atentados e outros atos de sabotagem ou ainda guerras de guerrilha. E, novamente, a vitória é duvidosa. Os muito ignorados tratados de não proliferação só aconteceram depois da corrida armamentista ter sido ganha, com a incontestável hegemonia dos Estados Unidos na posse de mais armas nucleares do que até mesmo seria prático ou útil. E parece ser claro que a proliferação continua enquanto for preciso, atualmente, na forma de um desenvolvimento tático nuclear e uma nova onda de propostas para instalações nucleares”

O movimento dos direitos civis nos Estados Unidos é um dos mais importantes episódios da história pacifista. Por todo o mundo, pessoas o veem como um exemplo de uma vitória não violenta. Mas, como em outros exemplos que discutimos aqui, não foi nem vitorioso, nem não violento. O movimento foi bem sucedido em acabar com a segregação de direito e com a expansão da minúscula pequena-burguesia negra, mas essas não eram as únicas demandas da maioria dos participantes do movimento. Eles queriam total equidade política e econômica, e muitos também queriam a libertação negra na forma de uma nacionalismo negro, ou intercomunalismo negro, ou alguma outra independência do imperialismo branco. Nenhuma dessas demandas foram atendidas – nem equidade e nem, obviamente, libertação.” […] Outras raças também ficaram sem os frutos míticos dos direitos civis. Imigrantes latinos e asiáticos são especialmente vulneráveis a abusos, deportação, negação de serviços sociais aos quais eles pagam impostos, e a trabalhos tóxicos e exaustivos em fábricas de trabalho escravo ou ainda como trabalhadores rurais migrantes”  […]  “Nativos são mantidos tão abaixo na ladeira socioeconômica”

A afirmação que o movimento pacifista estadunidense acabou com a guerra contra o Vietnã possui o usual conjunto de falhas. As críticas foram bem feitas por Ward Churchill e outros], então somente irei resumi-las. Os ativistas pacifistas ignoram, com uma imperdoável hipocrisia, que três a cinco milhões de indochineses morreram na luta contra o exército estadunidense; que milhares de tropas americanas foram mortas e outras milhares feridas; que outras tropas desmoralizadas pelo derramamento de sangue tornaram-se extremamente ineficazes e revoltosas” […] O movimento pacifista americano falhou em trazer a paz. O imperialismo norte-americano continuou imbatível, e, apesar de sua estratégia militar ter sido derrota pelos vietnamitas, os EUA ainda assim cumpriram com seus objetivos políticos gerais em seu devido tempo, precisamente por causa do fracasso do movimento pacifista em realizar qualquer mudança interna.”

“Talvez confusos por sua própria história falsa do movimento pacifista durante a Guerra do Vietnã, organizadores pacifistas estadunidenses, no século 21, pareciam esperar uma repetição de uma vitória que nunca aconteceu em seus planos de parar a invasão do Iraque.” […]  “Alguns grupos, como o United for Peace and Justice, inclusive, sugeriram que os protestos poderiam evitar a guerra. É óbvio que eles estavam totalmente errados, e os protestos foram totalmente ineficazes. A invasão ocorreu como planejado, apesar de que milhares de pessoas nominalmente, pacificamente, e impotentemente opuseram-se a ela. O movimento contra a guerra não fez nada para mudar as relações de poder nos Estados Unidos. Bush recebeu capital político substancial por ter invadido o Iraque, e não se deparou com reação alguma até que o esforço da guerra e da ocupação começaram a aparecer – sinais de fracasso pela eficaz resistência armada do povo iraquiano.”

“Um bom caso de estudo em relação à eficácia dos protestos não violentos pode ser visto no envolvimento da Espanha com a ocupação liderada pelos Estados Unidos. A Espanha, com 1300 tropas, foi uma das maiores sócias subalternas na Coalition of the Willing. Mais de um milhão de espanhóis protestaram contra a invasão, e 80% da população espanhola dizia ser contrária a ela, mas seu comprometimento com a paz acabou aí.” […] Enquanto milhões de ativistas pacíficos votavam nas ruas como boas ovelhas, uma pequena dezena de terroristas disposta a abater não combatentes foi capaz de causar a retirada de mais de mil tropas da ocupação.”

A moralidade da situação […] ” … deveria nos fazer questionar se nossa condenação ao terrorismo realmente tem alguma coisa a ver com um respeito pela vida. Como não estamos lutando por um mundo autoritário, ou um em que o sangue é derramado em conformidade com justificativas racionais calculadas, os atentados de Madri não representam um exemplo de ação, mas antes, um paradoxo importante […] Isso para vermos o quanto vale as vitórias pacifistas.”.

O Holocausto somente terminou pela combinada e esmagadora violência dos governos Aliados, que destruíram o Estado Nazista. Embora, para ser honesto, eles tenham se preocupado muito mais em redesenhar o mapa da Europa do que salvar vidas de cidadãos de Roma, judeus, gays, esquerdistas, prisioneiros de guerra soviéticos, e outros. Inclusive, soviéticos tenderam a “expurgar” prisioneiros de guerra resgatados, temendo que mesmo que eles não fossem culpados pela deserção ao renderem-se, seu contato com estrangeiros nos campos de concentração os tivesse contaminado ideologicamente.” […] “A vítimas do Holocausto, entretanto, não foram completamente passivas”. […] ” … havia as guerrilhas urbanas e os partisans que lutaram violentamente contra os nazistas. Em abril e maio de 1943, judeus no gueto de Varsóvia levantaram-se com armas clandestinas, roubadas e feitas em casa. Setecentos homens e mulheres jovens lutaram por semanas, até a morte, imobilizando milhares de tropas nazistas e outros recursos necessários para o colapso da Frente Oriental. Eles sabiam que seriam mortos sendo pacíficos ou não. Por rebelarem-se violentamente, viveram as últimas semanas de suas vidas em resistência e liberdade, e reduziram a máquina de guerra nazista. […] Em comparação, táticas não violentas (e, dito isso, os governos Aliados, cujos bombardeiros poderiam ter facilmente alcançado Auschwitz e outros campos) fracassaram em destruir ou fechar qualquer campo de concentração antes do fim da guerra.”

“Posto de uma maneira simples: se um movimento não é uma ameaça, não pode mudar um sistema baseado na violência a na coerção centralizada, e se esse movimento não se dá conta nem exercita o poder que o faz ser uma ameaça, ele não pode destruir tal sistema. No mundo de hoje, governos e corporações controlam quase todo o monopólio do poder, do qual um dos aspectos mais importantes é a violência. A menos que mudemos as relações de poder (e, preferencialmente, destruamos a infraestrutura e a cultura de poder centralizado para tornar impossível a subjugação da maioria por uma minoria), aqueles que atualmente se beneficiam da onipresença da estrutura da violência, que controlam o exército, os bancos, as burocracias, e as corporações, continuarão tomando as decisões. A elite não pode ser persuadida por apelos à sua consciência. Indivíduos que mudam suas ideias e encontram uma moralidade melhor serão despedidos, impedidos, substituídos, desaparecidos, mortos.”

Precisamos retomar a história da resistência para entender como falhamos no passado e como exatamente alcançamos o limitado sucesso que conseguimos. Precisamos aceitar também que todas as lutas sociais, exceto aquelas levadas a cabo por pessoas completamente pacificadas e, portanto, ineficazes, incluem uma diversidade de táticas. Ao perceber que a não violência nunca realmente produziu vitórias históricas em relação a objetivos revolucionários, se abre a porta para considerar outras sérias falhas da não violência. “

Ativistas da não-violência, tentando parecer estratégicos, frequentemente evitam qualquer elaboração de estratégias reais com simples afirmações, como: “a violência é a carta mais forte do Estado. Temos que seguir o caminho da resistência mínima, e atingi-los onde são mais fracos. Já é hora de distinguir entre elaborar estratégias e elaborar slogans, e de ficar um pouco mais sofisticado.”

“Estes dois termos (violência e não-violência) são fronteiras que se situam ao redor de uma diversidade de táticas. Uma diversidade limitada de táticas constrangerá as opções disponíveis para gerar estratégias, quando na realidade as táticas devem fluir sempre a partir de estratégias, e estas, por sua vez, devem fluir a partir de um objetivo” […] Esse objetivo final está muito longe – tão longe que muitos de nós evita pensar sobre isso, porque podemos descobrir que não acreditamos que seja possível. Nos concentrarmos nas realidades imediatas é vital, mas ignorar o destino implica que jamais consigamos alcançá-lo.

“De um certo modo, os ativistas não-violentos têm, normalmente, uma certa vantagem sobre os ativistas revolucionários, já que muitas vezes têm estratégias bem desenvolvidas para a busca de objetivos de curto prazo. A troca tende a ser uma total anulação dos objetivos de médio e longo prazo, provavelmente porque os objetivos de curto prazo e as estratégias pacifistas os encaminham a becos sem saída que seriam extremamente desmoralizantes se fossem percebidos.”

“Finalmente, temos as táticas, que são as ações ou tipos de ações que produzem determinados resultados. Idealmente, esses resultados têm um efeito composto, construindo o momento ou concentrando força ao longo das linhas traçadas pela estratégia. Escrever cartas é uma tática. Lançar um tijolo contra uma janela é uma tática. É frustrante que toda a controvérsia entre “violência” e “não-violência” desenvolva-se, simplesmente, pela discussão de táticas, quando a maioria das pessoas nem sequer questionou-se se os nossos objetivos são compatíveis, e se nossas estratégias são complementares ou contraproducentes. Face ao genocídio, à extinção, à prisão e a um legado de milênios de dominação e degradação, será que traímos nossos aliados ou negamos a participação na luta por aspectos triviais como quebrar janelas ou usar armas? Isso ferve o sangue! […] Vamos fingir que todos nós desejamos a libertação completa. Isso evidencia uma diferenciação de estratégias e de táticas. Claramente, a soma total de táticas disponíveis para os ativistas não-violentos é inferior, pois apenas podem usar a metade das opções que se abrem para os ativistas revolucionários.”

“Os ativistas não-violentos colocam toda sua energia em obrigar as autoridades a ouvirem suas demandas, quando poderiam usar essa mesma energia para construir poder, para criar bases para fazer a guerra. Se alcançassem êxito, o que teriam alcançado? Como muito o governo sussurraria uma breve desculpa, perdendo um pouco de sua boa imagem, e confrontaria a demanda através de um papel (ainda que eles apenas se dediquem a fazer malabarismo com as coisas a sua volta com a intenção de negar a existência dos problemas) após isso, os ativistas terão perdido o momento e a iniciativa, estarão na defensiva, mudando de direção e reajustando sua campanha para enfatizar que trata-se se uma reforma fraudulenta. Entre membros de sua organização, os que se desencantam pulam fora, e o público em geral perceberá a organização como uma entidade impotente e incapaz de alcançar sua meta.”

“Como exatamente se supõe que vamos construir instituições alternativas se somos impotentes na hora de protegê-las da repressão? Como vamos encontrar terras onde construir estas estruturas alternativas quando tudo nesta sociedade tem um proprietário? E como podemos nos esquecer de que o capitalismo não é eterno, que alguma vez tudo foi “alternativo” e que seu paradigma desenvolveu-se e expandiu-se através precisamente da sua habilidade para conquistar e consumir essas alternativas?” […] os tipos mais importantes de estratégias não-violentas terminam, a longo prazo, num insuperável beco sem saída. As estratégias de tipo moral não compreendem o jeito que o Estado mantém o controle; e assim, permanecem cegos às barreiras impostas pelos meios de comunicação e as instituições culturais, não oferecendo qualquer contrapartida à capacidade de minorias armadas controlar maiorias desarmadas. A abordagem de lobby gasta recursos tentando pressionar o governo para que atue contra seus próprios interesses. As estratégias centradas em construir alternativas ignoram a habilidade do Estado em reprimir projetos radicais e o talento do capitalismo em absorver e corromper as sociedades autônomas. As estratégias de desobediência generalizada abrem a porta para a revolução, mas negam aos movimentos populares as táticas necessárias para expropriar o controle direto da economia, redistribuir a saúde, e destruir o aparelho repressivo do Estado.”

“Mas é em nossas organizações cotidianas que ativistas anti-autoritários podem superar estrategicamente a passividade e promover a militância, e assim mudar as perspectivas das lutas futuras. […] A não-violência acaba por jogar dois jogos, vigilância de dentro das comunidades e estratégias de controle de multidões. As táticas do pacifismo, como muitas das táticas do moderno controle policial das multidões, são desenhadas para desempoderar situações potencialmente insurrecionais.”

“A primeira vista, uma concepção militante de revolução parece mais impraticável do que uma concepção não-violenta, mas isso acontece porque ela é realista. As pessoas devem compreender que o capitalismo, o Estado, a supremacia branca e o patriarcado, constituem, somados, uma guerra aberta contra a população mundial. Fazendo da revolução apenas uma intensificação dessa guerra. Não podemos nos libertar e criar os mundos nos quais queremos viver se pensamos na mudança social em termos de “acender uma vela na escuridão”, “ganhar as mentes e os corações”, “falar claramente com o poder”, “capturar a atenção das pessoas”, ou qualquer outro desfile passivo. Se dar conta de que isso tudo é uma guerra pode nos ajudar a decidir quais estratégias devemos elaborar para o caminho necessário. Principalmente para aqueles de nós moradores da América do Norte, da Europa, e de qualquer outra parte do mundo na qual exista a ilusão da democracia.”

“É evidente que o Estado teme mais os grupos militantes que os não-violentos; para mim isso enfatiza o fato de que os grupos militantes são mais efetivos. O Estado compreende que deve reagir de jeito mais forte e enérgico para neutralizar os movimentos revolucionários militantes. Eu escutei várias vezes alguns ativistas não-violentos jogar com esses fatos para argumentar que as tentativas revolucionárias não-violentas são mais eficazes, já que as tentativas militantes serão selvagemente reprimidas (e em outros capítulos eu mostrei que esses ativistas estão mais preocupados com sua própria segurança). Isso é certo, o caminho para a revolução vislumbrado pelos ativistas militantes é muito mais difícil e perigoso do que aquele vislumbrado pelos pacifistas, mas também tem a vantagem de ser mais realista, ao contrário da fantasia pacifista. […]” O Estado decide reprimir ativistas e movimentos sociais quando percebe as metas dissidentes como ameaçadoras e atingíveis. Se a meta é minar ou destruir o poder estatal, e os agentes do Estado acreditam que há chance dessa meta ser atingida, eles irão reprimir ou destruir o movimento, independente das táticas advogadas”,

As estratégias da não-violência não podem derrotar o Estado; elas tendem a refletir uma falta de compreensão da verdadeira natureza do mesmo. O poder do Estado autoperpetúa-se – vencerá os movimentos de libertação com tudo aquilo que esteja a sua disposição, e se as tentativas de derrubar tal estrutura de poder sobrevivem às primeiras ondas repressivas, a elite converterá o conflito em um conflito militar, e já sabemos que as pessoas que empregam a não-violência não poderão nunca vencer um conflito militar. O pacifismo não pode defender-se a si mesmo contra esse intransigente extermínio.”

“A história da sua prática me conduz à mesma conclusão: a não-violência não pode defender-se a si mesma contra o Estado, e menos ainda pode derrotá-lo. O proclamado poder da não-violência é uma ilusão que outorga aos seus praticantes segurança e capital moral para mascarar sua incapacidade de vencer.”

 

QUE SEJAMOS, PORTANTO, VIOLENTOS.

QUE ESTEJAMOS, PORTANTO, ORGANIZADOS

QUE COMPREENDAMOS, PORTANTO, UMA INFINIDADE DE TÁTICAS E ESTRATÉGIAS

 

 

Porque nenhuma fronteira do mundo pode barrar a Revolução Social

 

 

 

 

 

 

O Novo Governo arderá nas chamas da Revolta, da Resistência e da Revolução Social.

Ao dia 01 de janeiro do novo ano que se inicia, 2019, o Brasil entra numa nova fase de sua história. O fascista-entreguista Jair Messias Bolsonaro toma posse como o 38º Presidente do Brasil, junto ao General Mourão, o vice-facho-não-decorativo. Brasília, palco do espetáculo da democracia burguesa, aparentava muito mais um foto de uma fronteira qualquer entre países do bloco capitalista e do bloco socialista durante a Guerra Fria. Espaço aéreo fechado, grades, cercas, quatro revistas, restrições de porte de comida, água, guarda-sol, câmeras. Os jornalistas, largados numa saleta, ameaçados, proibidos de cobrir o evento; censurados.

A posse, carregada de militarismo, nacionalismo, entreguismo, espiritualidade e demonstração de poder, requer dois discursos onde se falaria, no primeiro ao Congresso Nacional, e o segundo a todos e todas as trabalhadoras deste país sobre os objetivos, as conquistas, as vitórias, os agradecimentos, etc. Entretanto, nada mais do que comum, Bolsonaro utilizou destes espaços  para continuar a ameaçar, controlar, atacar e perseguir qualquer seja a pessoa que se oponha a ele. Que se oponha aos seus projetos militaristas e fanáticos, e ultraliberais do Chicago Boy, Paulo Guedes.

Bolsonaro, primeiramente, pretende reerguer a “Pátria”, essa degenerada pátria que se afunda em corrupção, irresponsabilidade econômica, criminalidade e submissão ideológica.

Para combater a submissão ideológica, Bolsonaro busca valorizando a Família, a tradição Judaico-Cristã, combatendo a Ideologia de Gênero e Conservando Valores. Sendo o poder como em seu Slogan, de Brasília para o Brasil, de Deus para Brasília: Brasil acima de tudo. Deus acima de todos. Portanto, que os inimigos da Pátria tenham medo.

Que nós tenhamos medo, pois a Tradição, a Família e a Propriedade detém o poder e elegeram o Fascista Entreguista na melhorar das presepadas da Democracia Burguesa e da Social-Democracia. Para ele, bem como estampado Pavilhão Nacional, nenhum país cresce sem Ordem e sem Progresso.

Não obstante, Jair Messias Bolsonaro, para que os Cidadãos de Bem possam salvaguardar suas tradições, proteger suas famílias e sua propriedade, uma arma na mão de cada burguês branco para que ele possa combater a criminalidade. E se ele não conseguir, os policiais e as forças armadas vão dispor de todo e qualquer aparato para exterminar qualquer morador de favela, preto e pobre..

E na economia? Jair não consegue ser menos discreto: abrir ao comércio internacional, mas sem viés ideológico, desregulamentando e desburocratizando. Ampliar a destruição de matas nativas e genocídios indígenas com o agronegócio, mas em perfeita harmonia com o meio ambiente.

Desta forma, numa grande Pacto Nacional entre o FachoEntreguista e o Facho-Não-Decorativo, entre os Pilantras de Terno e entre os Canalhas de Togas, o Brasil – abençoado por Deus – poderá ser tornar uma Grande Nação.

Uma Grande Nação livre do Socialismo, guiada por Deus e gerido por Jair Messias Bolsonaro, o Honesto, que expurgará de uma vez por todas uma ideologia nefasta que dividem os brasileiros. Porém não sozinho o fará, fará junto aos seus eleitores, num Grande Movimento, para reestabelecer os padrões Éticos e Morais de um Brasil desigual, assassino e punitivista. Os padrões éticos e morais que aprofundam as perseguições aos trabalhadores e trabalhadoras mais pobres, aos homens e mulheres negras, a comunidade LGTBI+, aos militantes, socialistas,  anarquistas e revolucionários.

O Entreguista, contudo, pretende com que os interesses dos brasileiros venham em primeiro lugar. Logo abaixo da sola imperialista e sionista. Contra a corrupção  e a ideologização das crianças, do desvirtuamento dos direitos humanos e desconstrução da família, o Entreguista proporcionará à todas e todos nós a infraestrutura necessária para acabar com a ideologia que defende bandidos e leva a insegurança nas portas da casa dos trabalhadores.

Pois agora, para Jair Messias Bolsonaro, o Brasil entra numa nova fase: uma fase sem partido, sem viés ideológico, uma fase única, endurecida, do pensamento único e não divergente. A criticidade destrói famílias, é corrupta e insegura. A criticidade afunda o Brasil. E por isso, agora, necessitamos mais do que estabelecer um norte, um norte verde-amarelo com a estrela de Davi e a peruca loira.

O Brasil, portanto, estando acima de tudo e com Deus acima de todos poderá garantir os sonhos de Jair Messias Bolsonaro: uma arma na mão de cada brasileiro branco e rico para matar qualquer preto pobre por não estar dentro dos padrões éticos e morais defendidos por ele. Para poder destruir cada centímetro de terra indígena e que cada índio se torne Cidadão de Bem ou não restará dúvidas de seu extermínio. Para poder espancar e diminuir qualquer que seja a mulher que queira sair de casa para ser quem ela queira ser. Para poder proibir e assassinar mais pessoas LGBTQI+, mesmo o Brasil sendo um dos que mais faz isso. Para poder destruir o meio ambiente em prol de um desenvolvimento atrasado. Vendendo tudo para o comércio internacional para acabar com a desigualdade social. Dando fim nos investimentos públicos e privatizando tudo aquilo que lhe der na telha, tudo aquilo que Paulo Guedes, o ultraliberal, considerar lucrativo para suas próprias empresas. A ideia, do trabalhador sem direitos, sem justiça, sem comida, sem água, sem saúde, sem educação: só se puder pagar.

No dia 01 de janeiro de 2019, um novo projeto de poder se instaura no Brasil.

Um projeto de poder que tem como objetivo o (enriquecimento dos ricos e o empobrecimento dos pobres) extermínio do povo pobre. Um projeto de poder que tem como objetivo o extermínio da militância política de caráter socialista. Um projeto de poder que tem como objetivo privatizar os bens do povo.

Um projeto de poder de manutenção dos privilégios burgueses, daqueles que legislam em benefício próprio, demarcando muito bem a classe a ser favorecida.

Se inicia um novo projeto, não tão novo assim.

Um projeto que mediante a censura, a perseguição e ao ataque aos mais pobres busca destruir cada sonho e cada movimento em prol da dignidade, liberdade, emancipação, solidariedade e igualdade.

Um projeto feito pelos ricos e para os ricos com o único objetivo de submeter cada trabalhador e cada trabalhadora as vontades e interesses dos Capital e do Estado.

Com o Brasil acima de Tudo e Deus acima de Todos, Jair Messias Bolsonaro pretende, de uma vez por todas, nos transportar diretamente para o mais alto grau de desigualdade social.

O Novo Governo começa em chamas, e aos militantes revolucionários só nos resta se organizar, se solidarizar e resistir junto a classe trabalhadora contra nosso próprio extermínio.

Nenhuma fronteira do mundo poderá barrar a Revolução Social, porque carregamos em nossos corações  um mundo novo e nem o mais degenerados dos homens poderá nos impedir.

SEM PÁTRIA, SEM DEUSES, SEM PATRÕES E SEM PATRIARCADO.

O Novo Governo arderá nas chamas da Revolta, da Resistência e da Revolução Social.

 

02 de janeiro de 2019 – Companheiro R.

2019 – Um Apelo

Para um 2019 de resistência e luta, um apelo aos militantes revolucionário/as minimamente organizados/as.

Quanto de nós anarquistas (ou sindicalistas revolucionários; ou anarcossindicalistas; ou anarquistas sociais; ou socialistas libertários; ou agrupamentos autônomos; ou tendências antifascistas; ou movimentos estudantis; ou…) temos em conta do quão capilarizado é o anarquismo (;ou…) no Brasil?

Quando vos digo “Brasil” é necessaria que compreendamos o territorio brasileiro em sua totalidade. O que conhecemos, de fato, da nossa capilaridade quando longe dos centros urbanos? Do que falamos quando falamos de “organização revolucionária no Brasil” se não tratamos esse país em sua verdadeira face: interiorana, rural e campesina.

É fato que todos e todas nós sabemos sobre as tividades culturais, ações diretas, moçons de solidariedade, feiras, manifestações, ocupações, etc. que ocorrem nos grandes centros urbanos. Midiatizadas nas redes sociais, em blogs, listagens, e-mails, etc. temos (quase) total acesso as informações que percorrem os grandes centros.

É fato, também, que muitas dessas atividades ocorrem nas pequenas-cidades: reunições, atividades culturais, manifestações, agrupamentos, construções de organização, trabalho de base e tentativas frustradas de comunicação e divulgação.

Quando voz digo sobre essas tentativas frustradas, é necessário compreender que estamos intoxicados de informações que não fazem jus a realidade das pequenas-cidades.

Cidades que diferentemente das capitais ainda mantém fortemente o seu poder graças ao coronelismo, à força da Igreja Católica, dos conservadores, ruralistas, neopentecostais, latifundiários e saudosistas da Ditadura Militar.

Problemáticas que interferem diariamente em milhares de municípios do país e não fazem parte das discussões, debates, análises e notícias que circundam o meio revolucionário urbano.

Cidades do interior paulista, fluminense, gaúcho, paranaense, pernambucano, paraense, piauiense, goiano, matogrossense, mineiro, etc. Cidades que constróem trabalhos belíssimos, que modificam a cultura e o imaginário social desses locais. Locais que insistem em perseguir, punir, esquecer e restringir a liberdade de companheiros e companheiras sem nos darmos conta do se passa lá.

“Que se passa lá”?, melhor dizendo, “do que se passa aqui”. É importante, neste momento, destacar: porque nós anarquistas (;ou…) de pequenas-cidades sabemos mais sobre o que acontece nos grandes centros urbanos e não sabemos patavinas do que ocorre na cidade vizinha, com a companheira do sítio, com o companheiro da usina? O que nos falta?

Já vos disse: estamos intoxicados de informações que não contemplam a nossa realidade.

Intoxicados pela força de comunicação das médias e grandes organizações que ao se estabelecerem nas redes sociais, e-mails, listagens, blogs, etc. engolem (não propositalmente) a troca de informações entre as pequenas-cidades: que nos isolam e nos fazem acreditar que estamos sós ou que somos apenas forças desencadeadas pelo urbano; menos relevantes.

Esquecemos que fazemos atividades culturais, que elaboramos reuniões, que construpimos organização, que lutamos, manifestamos e ocupamos os espaços. Esquecemos que nossos companheiro e companheiras participam de campanhas internacionalistas, que nos solidarizamos.

Esquecemos que se o campo não luta e não produz, o centro urbano não se liberta e não come.

Precisamos de um antídoto.

Precisamos nos desintoxicar e passar a compreender a nossa realidade e divulgá-la entre nós, nos solidarizarmos entre nós anarquistas (;ou…) de cidade pequenas. Sermos solidários e menos guiados pela conjuntura urbana.

Temos que compreender que a luta que desenvolvemos no interior paranaense é muito mais próxima da nosa que desenvolvemos no interior maranhanse do que com a luta que companheiros e companheiras desenvolvem na capital paulista.

Mas só nos desintoxicaremos quando compreendermos e apoiar-nos uns aos outros, como um apelo: nos comunicarmos, darmos mais êngase ao interior; a gente.

Para um 2019 de resistência e luta, um apelo aos militantes revolucionário/as minimamente organizados/as.

Que criemos redes de comunicação interiorana! Que criemos redes de solidariedade! Que divulguemos os belíssimos trabalhos dos companheiras e companheiras!

Que compreendamos a nossa realidade e dos nossos irmãos e irmãs anarquistas (;ou…)

Que nos comuniquemos integralmente!

Que saibamos que nossa capitalidade vai além da capital!

Que somos muitos espalhados pelo Brasil e precisamos nos auxiliar, nos divulgar, nos apoiar!

 

Precisamos, para 2019, saúde, anarquia e fraternidade entre todos e todas nós que vivenciamos dioturnamente a luta das pequenas-cidades, do campo, do quilombo e da reserva.

“Porque nenhuma fronteira do mundo pode barrar a Revolução” e precisamos divulgar isso a todo o planeta.

 

Um apelo para 2019

|Comunicação|Solidariedade|Apoio mútuo|

 

Companheiro R. – 31 de dezembro de 2018

 

 

 

 

Boas Festas

 

Isabel Cerruti, uma mulher anarquista brasileira, que contribuiu com o jornal A Plebe durante quase todo o seu período de existência (durante as duas fases), também contribuiu para a formação do Centro inforamativo Feminino e da Liga Feminina Internacional, escreve no dia 26 de dezembro de 1933 o artigo “Boas Festas”, sendo apenas publicado ao dia 30 de dezembro, daquele mesmo ano, pelo jornal já citado: 

 

 

Resido no centro da cidade. E quem reside no centro da cidade, mais do que quem reside nos bairros, é que vê em abudância a dolorosa miséria dos desherdados de tudo, na sociedade presente.

Como não havia nada a fazer estive à janela a tarde do dia de natal. Via passar crianças alegres, cada qual exibindo os presentes de papai Noel… Crianças  felizes cujos pais ganham salários suficientes para honrar o tal papai Noel. E outras, quiçá, cujos pais fizeram talvez sacrifícios para presentearem os  filhinhos diletos, e vê-los sorrir ditosos ao menos uma vez por ano, nesta data alviçareira, crentes de que “nem só de pão vive o homem…”.

E é bem certo esse adágio. Como o nosso coração idealista se expande na solidariedade dessa felicidade infantil! Pois bem nos lembramos, também, de quando éramos pequeninos e a essa lembrança somos gratos aos nossos queridos pais quando nos faziam felizes presenteado-nos com um brinquedinho…

Da minha janela, absorvida nesses pensamento, além de crianças e pessoas felizes, eu vi passar também velhos maltrapilhos e crianças imundas. Dessas para os quais o papa Noel nunca se lembra. Pobres infelizes desherdados de tudo…

Duma casa, vizinha à minha, feliz, onde a criançada folgava à roda da espalhafatosa àrvore de Natal, gosando os mais lindos e custosos presentes e saborenado as mais apetitosas guloseimas, saiu correndo para a rua, a ganhar um pouco de liberdade, aproveitando-se da distração de todos, um lindo cachorrinho Lulu’, trazendo à boca uma grande fatia de bolo de Natal. Mas, por sinal, o animalzinho de estimação já estava fato demais, pois apenas chegado no passeio largou no chão a fatia de bolo, apenas mordido numa pontinha.

Pensei comigo mesma: quanto lares sem pão e quantas crianças haverá hoje que se sentiriram felizes com essa fatia de bolo que esse ser irracional bem tratado desprezou no meio da rua.

Nem bem concluí meu pensamento e vejo surgir dois garotos de uns sete a oito anos, um,  e de dez a doze anos outro, trazendo ambos à tira-colo a caixinha de engraxates, sujo, maltrapilhos e mal nutridos.

Ao avistarem a fatia de bolo atirado ao solo, atiraram-se ao mesmo tempo avidamente, disputando-o. Afinal, de bom acordo, resolveram repartí-lo e lá se foram a caminho juntos os dois, alegres pelo achado, comendo sofregamente aquela fatia de bolo amarelinho e sedutora, que o caozinho de estimação havia largado no chão, farto de alemento e gulodices.

À vista dessas coisas conjecturei comigo mesma. Para que servem a “Cruzada pró Infância”, a “Liga das Senhoras Católicas” e outras instituições quejandas que se propõem, todas, a proteger a infância e a defender-lhe o direito?…

Qual! O problema da miséria é insolúvel dentro da sociedade burguesa. Só mesmo quando os miseráveis se decidirem fazer justiça por suas mãos, estabelecendo o direito de todos trabalhar e gosar à farta o produto todo do trabalhao -: tecto, alimentação e roupa – do bom e do melhor para todos, é que a infância será de fato garantida em seus direito: insrução, alimentação, folguedos, gulodices e brinquedos, para todas sem distinção.

ISA RUTI

S. Paulo 26 – 12 – 1933

A Plebe, 30 de dezembro de 1933.

 

A MILITÂNCIA REVOLUCIONÁRIA ANARQUISTA

A história recente da Luta pela Revolução Social na Grécia tem como data de nascimento o dia 14 de Novembro de 1973. Em plena ditadura militar orquestrada por coronéis de extrema direita, militantes da esquerda clandestina ocuparam a Universidade Politécnica de Atenas e nas paredes pintaram as frases “Abaixo o Estado” e “Abaixo o Capital”. Barricadas foram erguidas nas ruas paralelas e no portão principal. Uma rádio pirata foi instalada dentro da Universidade e irradiou discursos revolucionários para todo o país durante três dias seguidos até que em 17 de Novembro, tanques do exército derrubaram o portão principal e invadiram a ocupação matando 83 estudantes – a maioria deles anarquistas.

Dois dias depois a Grécia registraria os maiores protestos violentos da história do país. A ditadura chegou a instituir uma lei marcial para tentar frear o inevitável processo de colapso do regime, que ocorreria de fato menos de dez dias depois, em 25 de Dezembro. A ditadura do coronel Papadopoulos é então golpeada pelo brigadeiro Dimitrios Ioannidis, que substitui uma ditadura por outra. Os sucessivos golpes militares que começaram em 1967 sob a justificativa de “salvar o país do comunismo” só encontrariam um fim no dia 8 de Dezembro de 1974 com a instituição da Terceira República Helênica sob a liderança do direitista Karamanlis.

Este importante evento que acabou solapando a Ditadura dos Coronéis é hoje considerado feriado nacional. Todo dia 17 de Novembro, estabelecimentos estudantis fecham suas portas e estudantes e professores — em especial anarquistas — saem às ruas em protestos que religiosamente terminam reprimidos pela polícia.

A Escola Politécnica de Atenas, que fica no bairro estudantil de Exarchia, se tornou símbolo nacional de resistência e o marco inicial do movimento anarquista grego atual. Exarchia, distrito central de Atenas, a partir de então se tornou uma “zona livre” gerida por anarquistas, comunistas e militantes libertários. O bairro é majoritariamente composto por estudantes e professores da Universidade Politécnica, bem como funcionários públicos e autônomos, que coletivamente decidem e executam seus deveres e necessidades da forma mais libertária possível. Andando pelas ruas de Exarchia, é possível vislumbrar um bairro leve, colorido e politicamente pulsante, rodeado por ocupações culturais, bibliotecas, bares e restaurantes que exalam a liberdade defendida por aqueles que frequentam aquele território livre.

 

Foi também naquele bairro que outro importante e trágico evento marcaria a história grega, quase 35 anos depois do fim da ditadura naquele país. Na noite do dia 6 de Dezembro de 2008, um jovem anarquista de 15 anos, desarmado e com headphones, foi covardemente assassinado por dois policiais. Dois tiros atingiram o coração de Alexandros Grigoropoulos, que morreu nos braços de seu melhor amigo, Nikos Romanos, também de mesma idade. Poucas horas depois a Grécia registraria novamente os maiores protestos violentos de sua história que perduraram quase que ininterruptamente até o fim daquele mês.  

Nikos Romanos ajudou a carregar o caixão de Grigoropoulos durante seu velório antes de entrar para a ilegalidade e reaparecer em 2013 na mídia grega como assaltante de bancos, membro da organização de guerrilha urbana CCF (Conspiracy of Cells of Fire), ou “Conspiração das Células de Fogo”. Nikos foi capturado e preso junto com outros dois camaradas após uma tentativa frustrada de expropriação bancária em que foram utilizados coletes à prova de bala e fuzis Kalashnikov. Nikos Romanos foi barbaramente torturado pela polícia que chegou a manipular de forma grosseira as fotos dos rostos desfigurados dos três militantes. Atacado pela mídia e julgado culpado pelo Estado, Nikos foi condenado a 15 anos de prisão em uma prisão de segurança máxima.

Exarchia, por conta desses dois importantes eventos históricos, é o principal símbolo físico do anarquismo moderno na Grécia. Entretanto ele nem sempre foi assim.

O anarquismo não é novo na Grécia e certamente não começou na Universidade Politécnica de Atenas, nem terminará em Exarchia. Apesar das opiniões diferirem, anarquistas costumam dizer que o movimento começou na cidade portuária de Patras e foi trazido através do mar Jônico por navegadores italianos em meados do século 19.

De lá para cá, a solidariedade aos imigrantes foi sempre uma forma de se respeitar o legado daqueles que trouxeram a ideologia para a Grécia. Com o enorme fluxo de imigrantes árabes e africanos que começaram a chegar no país durante os últimos anos, centros anarquistas de ajuda e cooperação a estes recém-chegados começam a pipocar em Atenas, como é o caso do Centro de Solidariedade Notara, localizado em Exarchia.

Notara foi fundada em setembro de 2015 quando cerca de 20 anarquistas e militantes de esquerda ocuparam um prédio abandonado de três andares, que pertencia ao Ministério do Trabalho. O centro Notara é anarquista, altamente ideologizado e politicamente firme. Oferece acomodação temporária aos imigrantes, bem como tratamento médico, roupas, e informações para mais de 100 refugiados que buscam ajuda todos os dias.

Centro de Solidariedade Notara

Há também inúmeros outros estabelecimentos como Notara, geridos por militantes revolucionários, espalhados pelas ruas de Exarchia e também fora dela, oferecendo serviços gratuitos como aulas de grego e inglês, serviços hospitalares, hotelaria, comida, etc. A população mais pobre e sobretudo os recém desempregados e atingidos pelas medidas de austeridade, também são atendidos nesses pontos.

Essa solidariedade, entretanto, não é exclusividade apenas dos anarquistas. Grupos de extrema-direita como o “Golden Dawn” (Aurora Dourada, partido-movimento grego de caráter ultra nacionalista) também começaram a ajudar os pobres como um instrumento de luta e propaganda; entretanto esses grupos nacionalistas, extremamente demagogos, auxiliam somente os “gregos nativos” e fecham os olhos para a população mais marginalizada.

 Os fascistas não se limitam a distribuir comida ou ajudar os menos favorecidos como forma de atuação política. A perseguição violenta e muitas vezes fatal não só contra refugiados e imigrantes, mas também contra antifascistas, é certamente o principal pilar de atuação da militância de extrema-direita na Grécia.

Enfrentamentos violentos costumam ocorrer nas ruas de Exarchia entre invasores fascistas – bem como policiais – e anarquistas que patrulham e protegem o bairro. O fascismo tornou-se uma ameaça considerável aos anarquistas e à esquerda grega em geral, principalmente depois que o Golden Dawn angariou 7% dos votos nas eleições parlamentares de 2015. O partido conta, sobretudo, com o apoio de inúmeros policiais que integram o partido e fazem o jogo sujo da direita com suas fardas e coturnos.

O auge do conflito entre fascistas e anarquistas na Grécia resultou no assassinato de dois membros do Golden Dawn em frente à um gabinete do partido, em uma ação considerada “terrorista” pelas forças fascistas e policiais.

No dia 16 de novembro, a organização “The Fighting People’s Revolutionary Powers” (ou “Forças Revolucionárias do Povo Combatente”) clamou autoria de ambos os assassinatos como sendo uma retaliação à morte de Pavlos Fyssas — também conhecido como Killah-P — , rapper antifascista envolvido no movimento anarquista de Atenas.

Pavlos morreu em setembro de 2013, esfaqueado por um grupo de neonazistas ligados ao Golden Dawn. Alguns dias depois, 20 membros do partido — incluindo seu líder Nikolaos Michaloliakos — foram presos pela polícia antiterrorista acusados de formação de quadrilha. Na casa de Michaloliakos foram encontradas armas, munições e uma quantidade considerável de dinheiro vivo.

A história de Michaloliakos acabou quando ele ganhou sua liberdade em Julho de 2015; uma sorte que Nikos Romanos não foi capaz de conseguir. Atualmente preso em uma cadeia de segurança máxima após a tentativa frustrada de assalto a banco em 2012, Nikos acabou atraindo atenção internacional para a organização clandestina pela qual militava.

A Conspiração das Células de Fogo, com a propulsão internacional ligada ao icônico caso Romanos, é sem dúvida alguma um divisor de águas no cenário anarquista na Grécia. Desconhecida da população grega até 2008, a CCF apareceu na mídia no dia 21 de Janeiro daquele ano após incendiar e explodir 11 bancos e concessionárias de carros e seguros nas cidades de Atenas e Tessalônica.

A CCF tem como ideologia o anarco-individualismo, representando a partir disso uma outra alternativa ao anarquismo grego; majoritariamente social e de massas. Rejeitando o trabalhismo e outras lutas coletivistas, a CCF se restringe em atacar diretamente as estruturas do Estado e do Capital através da propaganda pela ação, sem esperar momento propício ou ajuda externa. A Conspiração, apesar disso, se posiciona através de seus manifestos digitais sempre em solidariedade às mais diversas lutas travadas pela militância anarquista e comunista, bem como aos presos políticos da Grécia e do mundo.

No manifesto mais popular da organização, intitulado “The Sun Still Rises” ou “O Sol Ainda Há de Nascer”, conceitos como “organização revolucionária”; “grupos de intimidade”; “expropriação bancária” e “guerrilhas urbanas” são defendidos como parte de uma estratégia de subversão da ordem e do poder. Em Outubro de 2011, a organização foi classificada como terrorista pelo Departamento de Estado dos EUA, após ações de repercusão internacional como o atentado à bomba no Tribunal de Atenas.

Após a prisão de Nikos, a Conspiração das Células de Fogo começou a ser atacada pela polícia anti-terrorista grega (extremamente bem equipada e treinada pelos EUA e pelo lobby de segurança da União Europeia) até que a maioria de seus membros estivessem atrás das grades, condenados a severas penas em prisões federais de segurança máxima. Apesar de fraca e atualmente desmembrada, a CCF continua resistindo a partir de pequenos grupos de afinidade espalhados pela Grécia e em especial pelas cidades de Atenas e Tessalônica, que realizam ataques esporádicos com bombas e dispostivos incendiários contra a polícia, juízes, bancos e sedes de partidos.

Resistindo ao fascismo, às forças policiais e às medidas de austeridade que atacam os mais jovens e os mais velhos, os anarquistas atualmente representam não só uma história de luta e resistência, como constituem a maior força política contra-hegemônica de toda a Grécia e quiçá do mundo.

A Grécia, outrora mãe da democracia moderna, hoje vê crescer no seio da sua sociedade um dos mais fortes grupos antissistêmicos do mundo.

A última grande revolta levada a cabo pelos anarquistas foi em 6 de dezembro de 2018, nas manifestações que lembravam os 10 anos da morte do garoto Alexandros Grigoropoulos.

Com uma sólida história, táticas diversificadas e uma surpreendente coesão organizacional, o anarquismo grego é sem dúvida alguma um dos maiores espelhos da Revolução Social para os movimentos antissistêmicos de todo o planeta.

 

Για τους Έλληνες αδελφούς,
Ζήτω ο αναρχισμός!
Ζήτω η κοινωνική επανάσταση!

Μπορεί η νεκρή μας ανάπαυση με ειρήνη.
Έτσι ώστε οι δολοφόνοι τους, να υποκύψουν στην εξέγερση

 

7 de dezembro de 2018 – Companheiro M.

 

Porque nenhuma fronteira do mundo pode barrar a Revolução Social